É Proibido Fumar
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É Proibido Fumar
Ficha Técnica e Elenco
Entrevista com a Diretora

Entrevista com a Diretora

 

Onde começa a história de É Proibido Fumar?

Ainda na época do Durval Discos, surgiu a ideia de fazer um filme com poucas locações, poucos personagens, que lidasse com a questão do "tempo morto", ou seja, uma história em que coubessem cenas que não fazem exatamente parte da narrativa. Num primeiro momento, o roteiro era uma trama multiplot localizada num prédio. Havia uma relação entre vizinhos. E tinha o cigarro. Foi na época em que eu estava parando de fumar, e percebi o deslocamento que o cigarro causa: quando ele sai da jogada, outros problemas aparecem.

 

Como foi o desenvolvimento do roteiro?

Foi um processo de sete anos. Em 2006, participei do laboratório Sesc Rio de Roteiros para Cinema, o antigo Sundance, que é uma coisa muito legal. Você passa quatro dias discutindo o roteiro com especialistas de várias partes do mundo, e cada um fala sobre uma coisa específica: estrutura, personagens, diálogo. Entre esses consultores, um belga, o Chris Caps, me apresentou um modelo clássico, quase matemático, de estruturação da trama, com número de atos, cenas e sequências, e duração de cenas, tudo determinado. É um princípio que garante o ritmo e deixa muito claros todos os pontos principais. Isso mudou completamente minha visão desse trabalho. Saí do laboratório sem roteiro, que joguei fora, mas com o filme completamente reestruturado.

 

Quem são Baby, Max, os personagens de É Proibido Fumar?

São pessoas paradas no tempo. Acho que todo mundo tem uma parcela assim, meio infantilóide, presa ao passado, à infância, à mãe; e isso tem a ver com obsessão, que por sua vez tem a ver com o cigarro. Meus personagens são meio abandonadas, fora da idéia que temos de sucesso. São bem classe-média. Vivem numa era pré-yuppie - e nesse caso, o yuppie é representado pela personagem da Marisa Orth, que fala inglês e gastou o dinheiro da herança para estudar - , quando a noção de "dar certo" não era tão valorizada. São pessoas desajustadas; não são desse tempo.

 

Qual é a grande questão do filme, para você?

No roteiro tinha uma frase de Santo Agostinho que é assim: eu sei que horas são, mas se me perguntam que horas são, não sei que horas são. Tinha muita vontade de falar da dificuldade das relações; de como superar, quebrar, furar as paredes da relação. Por isso, também, a metáfora do prédio; os apartamentos como corpos, separados por paredes. E tem outras questões relacionadas. O desejo, que, realizado, já não é mais a mesma coisa; os sentimentos que se tornam obsessivos e alteram os personagens.

 

Durval Discos tem tintas mais surrealistas. Aqui, qual tom você buscou para a história?

Esse filme é todo sutil. É uma trama de cores mais pastéis, cheia de sutilezas, coisas que podem ou não ser percebidas. O cigarro, por exemplo, que move toda a história, mas discretamente. O figurino da Glória, todo de brechó, que começa com cara de roupa de vovó e vai ficando cada vez mais rock n' roll, na medida que ela conhece o Max. Acho que é um tipo de filme que não existe muito no Brasil. É um pouco acima da realidade, levemente exagerado; e é aí que mora seu humor e cinismo. Não é uma comédia rasgada, nem realismo total, que são os tipos mais freqüentes de filmes produzidos aqui. Em relação ao Durval, é mais realista, mais popular, mais comercial; e tem mais ritmo.

 

Como você chegou ao par central do filme?

Conversamos com algumas pessoas, inclusive a Glória, que demorou cinco meses para responder e decidiu fazer. Achar o par dela foi complicado. Queria um ator que fosse de uma praia diferente, porque achava que isso geraria mais eletricidade. Testei alguns atores excelentes, mas não tinha graça, não tinha rock'n roll na mistura. Achava que o Max tinha que ter algo selvagem, de bad boy. Então fiz um teste com o Paulo e gostei muito. Antes de filmar, alugamos um apartamento e em dois dias passamos o roteiro, usando duas câmeras. Nesse demo filme, ficou claro que o Paulo era o Max. Ele mostrou uma virilidade, uma força, e, ao mesmo tempo, um lado muito doce.

 

Os outros atores do elenco fazem participações pequenas, mas marcantes. Quem são esses atores e quem os reuniu?

Trabalhei com a Patrícia Faria, uma diretora de casting que tem uma sensibilidade muito especial. As irmãs da Baby são a Marisa Orth, que pela primeira vez contracenou com a Glória Pires, apesar de serem ambas grandes atrizes, e contemporâneas; e a Dani Nefussi, que trabalhou com o Teatro da Vertigem e o Antunes Filho. No papel da Stellinha, ex-namorada do Max, tem a Alessandra Colassanti, atriz, autora de peças, performer. O porteiro, que é um papel importante, é o Antonio Edson, um talento do Galpão. Dona Guida é a Lili Angel, atriz nonagenária do Teatro da Hebraica, que a Patrícia descobriu pesquisando o elenco para O Ano em que meus pais saíram de férias. É um elenco de primeiríssima.

 

Antônio, André e José Abujamra, Paulo Cesar Pereio, Marcelo Mansfield, Pitty, Lourenço Mutarelli, Etty Frazer, Paula Pretta, Thogun, Theo Werneck. Qual é o papel das participações especiais no filme?

Elas entram nessa ideia de "tempo morto", das cenas que não servem à trama, mas ajudam a criar a personalidade do filme. Eu dizia para a Patrícia que era como se eles fossem parte do cenário: entram para enfeitar, como elementos; são uma graça. Ajudam a compor um cenário humano.

 

Como foi trabalhar com a Glória Pires?

A Glória é impressionante: vai fazendo cena a cena, tem método próprio; ela não constrói, ela acessa o personagem. Ela se joga. Sua atenção e cocentração são incríveis. Ela chegava no set e dizia: "Mas o que essa chave está fazendo aqui? Ontem não tinha nada disso". Ela conhece tudo, método, luz, plano. É focada. E adorou improvisar. Trouxe muita coisa para a Baby. Principalmente uma visão mais amorosa da personagem, que eu não tinha. Minha visão da Baby, assim como do Max, era muito irônica. Essa foi uma grande contribuição da Glória, e também do Paulo.

 

De novo, como em Durval Discos, a música tem um papel central na trama e na vida dos personagens. De onde vem isso?

O negócio da Baby dar aula de violão é algo que tem a ver com a minha infância. Minha mãe dava aula de violão, e a gente ficava exilada no resto da casa quando ela tinha aluno. Não podia entrar na sala. Quem dá aula de violão vive uma coisa assim: dos alunos, 1%, se muito, estão levando aquilo a sério e vão virar músicos. Então é meio frustrante. E o Max também tem uma ligação frustrada com a música, uma nostalgia meio melancólica; ele acha que bom era nos anos 1970. A gente conhece muito músico como o Max; a realidade da música, com poucas exceções, é mesmo triste.

 

O papel da música no filme se estende à trilha, com resgates de músicas esquecidas, Villa Lobos e samba rock. Como chegou a ela?

Tive alguns consultores: Pena Schmidt, Maurício Pereira e Paulo Miklos, que fez achados sensacionais. Coisas perdidas dos anos 60/70, na confluência do pop e do samba: Bola Sete, Lee Jackson, Juca Chaves. Já na montagem, cheguei aos Estudos para Violão do Villa Lobos, maravilhosos para criar estados, cenas. O ritmo é o Max; e a melodia, a Baby. A música ajuda a contar a história: no início, há o Villa Lobos, que representa o sonho de uma música elevada. O Max traz o pop para a trama. E os sambas subestimados não deixam de evocar uma necessidade que o amor nos coloca: descer do pedestal, ficar mais popular. No final, tudo acaba em Do you Like Samba?, do

Cyro Aguiar, que diz muito sobre o acerto final entre os personagens, também.

 

A trilha foi um investimento grande e se configura como uma atração à parte. Isso é tendência num certo tipo de cinema?

No meu caso, o amor pela música vem da infância. Queria fazer música. Fazer cinema é fazer música, de certa forma; cinema é uma sinfonia complexa, com tempo, ritmo, pistas. A tendência de os cineastas remexerem no baú para resgatar coisas esquecidas e dar a elas um enquadramento à altura de sua grandiosidade é geracional. Somos da geração que começou a cultuar o pop.

 

Que tipo de reação o filme tem suscitado no público, nos testes?

Nas mostras-teste que fizemos em Brasília e Curitiba, o público riu muito. E é interessante que mulheres e homens têm percepções muito diferentes. As mulheres focam mais na história de amor, no simbólico. Já os homens pegam pelo lado policial da trama. E há muitas interpretações para o final. É um pouco o que acontecia com os filmes que eu ia ver na Praça Roosevelt na adolescência. Os filmes que eu achava bons eram mais abertos. Como Durval, EPF é um filme mais aberto do que a média do que se faz hoje.



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