A Mulher Invisível
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A Mulher Invisível
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Entrevista com os Atores
Entrevista com o Diretor
Trailer

Entrevista com os Atores

 

Selton Mello (Pedro)

 

Com 28 anos de carreira, Selton Mello é um dos atores mais importantes da sua geração. Estreou na TV em 1981 e, desde então, já participou de dezenas de novelas e minisséries, além de peças teatrais. No cinema, possui no currículo mais de 20 longas-metragens. Entre eles estão os campeões de bilheteria "Meu Nome Não é Johnny" (de Mauro Lima, 2008, mais de 2,4 milhões de espectadores) e "Lisbela e o Prisioneiro" (de Guel Arraes, 2003, mais de 3,1 milhões de espectadores), além de "O Cheiro do Ralo" (de Heitor Dhalia, de 2005), "Árido Movie" (de Lírio Ferreira, 2004), "Lavoura Arcaica" (de Luiz Fernando Carvalho, 2001) e "O Auto da Compadecida" (de Guel Arraes, 2000), pelos quais recebeu prêmios em festivais nacionais e internacionais. Como diretor, estreou em 2008 seu primeiro longa-metragem: "Feliz Natal". Também dirige e apresenta o programa "Tarja Preta", do Canal Brasil.

 

- Como surgiu o convite para trabalhar em "A Mulher Invisível"? E o que te motivou a fazer o filme?

Já havia trabalhado com o Claudio Torres no episódio "Lira Paulistana" da série "Brava Gente", da Rede Globo. Sou fã dele. Adoro o filme "Redentor", que ele dirigiu. Um dia o Claudio me contou que queria fazer um filme para contar a história de um personagem que, num momento de depressão, cria uma mulher que não existe. Na hora imaginei que essa premissa junto com o talento do Claudio ia dar em coisa boa e falei: "Estou dentro!". O filme nem tinha roteiro e eu já disse que queria fazer.

 

- Descreva o Pedro, seu personagem.

O Pedro é um cara comum, com um emprego comum e com sentimentos comuns que toma um pé na bunda e enlouquece. E é um enlouquecimento comum de quem toma um pé na bunda. Eu gostei disso. Fiquei atraído pela possibilidade de interpretar um cara comum.

 

- Como foi o processo de construção do "Pedro"? O que você buscou salientar na personalidade dele?

Eu já sabia quem era o Pedro. Eu conheço a solidão. A diferença é que nunca inventei uma mulher pra viver comigo (risos). Nós ensaiamos, fizemos umas leituras, mas foi muito simples porque já sabíamos o filme que íamos fazer. Confiávamos na maneira como o Claudio queria contar a história. Então, fomos lá e jogamos o jogo.

 

- Como foi contracenar com você mesmo, ou melhor, nas cenas em que a Luana estava presente, mas você precisava tentar ignorá-la ou atuar como se ela não estivesse ao seu lado?

Foi esquizofrênico e bem divertido. Imagina o que é para um ator representar um personagem assim. É uma oportunidade e tanto! Você filma a cena com a atriz e depois você faz sozinho, dando o tempo para as respostas dela. Isso é muito louco e, portanto, muito bom.

 

- Qual foi o principal desafio durante as filmagens?

Foi difícil fazer a cena em que eu danço na boate, com e sem a Luana, porque tinha uma plateia enorme. Era uma boate lotada, e as pessoas ficavam me olhando, beijando o ar e dançando com o nada. Por outro lado, foi um belo termômetro, porque eu e Claudio Torres sacamos na hora, pela reação dos figurantes, que aquilo estava funcionando, estava divertido. Foi uma delícia.

 

- Como foi trabalhar com Claudio Torres em "A Mulher Invisível"? Você vê alguma vantagem no fato de o diretor do filme ter sido também o roteirista? Isso abre novas possibilidades para criações durante as filmagens?

 

O Claudio é muito generoso na lida com os atores e com a equipe. E foi um trabalho em que tudo correu muito bem, sem grandes percalços. A liberdade que ele dava era grande, mas o roteiro já era muito redondo e não precisávamos ficar inventando muita coisa no set. Mas, nas cenas de sofrimento do Pedro, eu pedi ao Claudio pra ir bem fundo. Uma delas é a sequência em que o Pedro começa a gritar e escrever a história da mulher invisível. Foi uma cena catártica, e o Claudio deixou que eu fizesse dessa forma. Nos momentos de aprofundar, a gente aprofundava. Nos momentos de fazer galhofa, a gente ia com tudo, sabendo dosar. O Claudio tinha uma consciência muito grande do que estava fazendo. Ele tem uma elegância na maneira de filmar. Foi um trabalho que adorei fazer, torço por ele e quero que ele seja visto. É um filme que vai agradar a várias faixas etárias.

 

- E o trabalho com os demais atores, como Luana, Vladimir e Maria Manoella?

A Luana é super estudiosa e a gente se deu super bem fazendo o filme juntos. E era louco porque eu fazia cena com ela e sem ela. E a Luana ficava com um pouco de ciúmes quando eu contracenava sozinho. Ela dizia: "Ah! Fica muito melhor comigo" (risos). A Maria Manoella é uma amiga de muito tempo, mas foi a primeira vez que trabalhamos juntos e foi ótimo. Talvez a Vitória seja o personagem mais difícil do filme e ela faz super bem aquela menina tímida e delicada. Também nunca tinha trabalhado com o Vladimir Brichta. Ele é um sujeito fabuloso. Virou um amigo. No set é um palhaço, com um astral sempre muito bom. Adorei trabalhar com ele, quero repetir essa parceria. No filme parece mesmo que a gente tem uma amizade de muitos anos. Isso acontece quando se tem um elenco que não compete entre si, mas que se admira e quer ver o outro bem. Essa era a onda que esse quarteto principal tinha.

 

- Como era o clima no set?

Foi um set muito divertido. Juntou um grupo muito bom. Eu, a Luana, a Manu e o Vlad nos demos super bem. Essa alegria e a vontade de estar fazendo o trabalho estão no filme. Nem sempre isso acontece. Às vezes você faz um trabalho que o set é uma maravilha e vira um filme ruim. E às vezes você faz um filme que o set é uma desgraça e vira um belo filme. Nem sempre você consegue ser feliz nas duas coisas: estar num set agradável, estar feliz trabalhando e ter um bom filme. Poucas vezes consegui isso na minha vida e uma delas foi em "A Mulher Invisível".

 

- Como as participações especiais contribuíram para o filme?

Ter a Maria Luisa Mendonça no elenco foi um luxo. Já trabalhei com ela algumas vezes. Ela deu uma grandiosidade à perda que o Pedro sofre logo no início do filme. Paulo Betti é sujeito muito divertido, um amigo e foi ótimo telo como chefe. Lucio Mauro, eu amo. Já o dirigi no meu primeiro longametragem, "Feliz Natal". Fernanda Torres é uma figuraça, uma parceira de muito tempo. Ela estava grávida durante as filmagens, com uma barriga gigante. Achei até muito corajoso da parte do Claudio e dela. O filho podia nascer a qualquer momento no set. Mas a Nanda é guerreira. Grávida, fazia o filme, uma peça, escrevia programa. Foi uma maravilha ter o talento dela perto da gente. Marcelo Adnet é um craque do humor. Entre a filmagem e o lançamento, ele virou um ídolo. E a cena que fazemos juntos ficou ótima.

 

- Pode-se dizer que a comédia seja o seu gênero preferido?

Eu me sinto muito à vontade fazendo comédia. Tenho feito nos últimos anos muitos personagens engraçados e se você tem uma boa história é melhor ainda. E era o caso aqui. Tinha um belo personagem na mão. Fazer uma coisa divertida e ter uma história consistente pra contar é ainda melhor.

 

- Após o sucesso de diversas comédias, você acredita que esse gênero esteja em alta com o público? Isso pode ser positivo para o filme?

Comédia desde os primórdios agrada ao grande público porque, provavelmente, desde os primórdios até os dias de hoje, a vida é dura e difícil. Então, acho que você tem que rir senão você pode enlouquecer e acabar inventando uma mulher imaginária, por exemplo. O riso é uma coisa catártica e, por isso, existe o sucesso dos filmes de comédia. As pessoas querem esquecer por um momento os problemas do cotidiano. E nisso vem "A Mulher invisível". De uma forma lírica, cumprindo esse papel. É divertido e tocante porque as pessoas se identificam com tudo aquilo ali.

 

- O que o público pode esperar de "A Mulher Invisível"?

É uma comédia, um filme simples, divertido, mas muito comovente também. Se você for pensar de um outro ponto de vista é até uma história triste. Um cara que num momento de solidão inventa alguém pra tornar a vida melhor. Isso é muito triste. Essa combinação é uma coisa positiva. Isso coloca o filme em outro patamar. Não é apenas uma comédia, mas uma comédia que emociona que fala de amizade, de temas profundos que a gente vive. É um ponto a mais nesse filme.

 

 

Luana Piovani (Amanda)

 

Começou a carreira de atriz em 1993, na minissérie "Sex Appeal", da Rede Globo. Nos anos seguintes, participou de diversas novelas, séries e programas especiais da emissora. Também foi modelo e apresentadora e debatedora do programa "Saia Justa", do GNT. Em 1999, passou a produzir peças teatrais, com o espetáculo A.M.I.G.A.S.. Mas foi com os infantis "Alice no País das Maravilhas" e "O Pequeno Príncipe", que obteve elogios da crítica especializada. Atualmente, está em cartaz com o monólogo "Pássaro da Noite". No cinema, já atuou em sete longas-metragens. Entre eles, estão "Zuzu Angel" (de Sérgio Rezende, 2006), "O Casamento de Romeu e Julieta" (de Bruno Barreto, 2004) e "O Homem que Copiava" (de Jorge Furtado, 2003). Além de "A Mulher Invisível", Luana estreia este ano "Família Vende Tudo", de Alan Fresnot, e "Insônia", de Beto Souza.

 

- Como surgiu o convite para trabalhar em "A Mulher Invisível"? E o que te motivou a fazer o filme?

Na época do lançamento do "Redentor", eu estava no Baixo Gávea, no Rio de Janeiro, e vi o Claudio Torres num cantinho de um bar observando as pessoas. Fui lá, me apresentei e disse que adorei o filme dele. Surpreendentemente, ele disse que estava escrevendo um filme pra mim. Eu perguntei como ele podia estar escrevendo um filme pra mim e eu não sabia de nada. Tudo o que uma atriz pode querer é ouvir de um diretor uma frase dessas. Três anos depois chegou o roteiro de "A Mulher Invisível" na minha casa. Assim que li, me apaixonei. Eu me diverti muito lendo o roteiro e já imaginando o Selton fazendo aquelas loucuras, contracenando com o nada. Fiquei atraída por vários motivos. Primeiro porque é uma história de amor, o que eu adoro. Contada de uma maneira muito divertida, o que eu também prezo muito. Achei que tinha todos os ingredientes perfeitos.

 

- Descreva a Amanda, sua personagem.

A Amanda é uma mulher que o homem idealizou. Então, não é ciumenta, entende de futebol, é bonita, concorda com quase tudo o que ele diz. É quase uma mulher perfeita. Só que ela não existe. E isso atrapalha um pouco a vida do Pedro. Quando ele se dá conta de tudo, percebe que está louco falando com alguém que não existe no meio da rua. A Amanda começa a lutar para que ele não se conscientize disso e ela não deixe de "viver". Ela toma gosto em viver pra ele, viver esse amor. E quando ele descobre que a Amanda só existia na cabeça dele, tenta fazer com que ela desapareça de vez. Mas ela diz: "Não, Não. Gostei disso aqui e quero ficar". E aí não sobra pedra sobre pedra (risos).

 

- Como foi o processo de construção da "Amanda"?

Não foi difícil descobrir como dar as emoções para a Amanda porque ela é uma pessoa que acredita no amor e eu também sou. Esse universo eu conheço bem. Então, eu não demorei muito pra me comunicar com ele.

 

- E a caracterização?

Esse era o grande trabalho que a Amanda dava. Como ela era ideal, eu era milimetricamente cuidada. Tive que colocar aplique no cabelo, unhas postiças. Ficava horas cacheando o cabelo. Eu tenho tatuagem e a personagem não. Ficávamos um tempão cobrindo as tatuagens. Demorava umas 2h15 para eu me transformar nessa mulher ideal. Durante a filmagem, a pele absorvia a maquiagem, o cabelo perdia o efeito. A gente tinha que retocar tudo, toda hora.

 

- Como foi trabalhar com o diretor Claudio Torres?

É muito bacana trabalhar com o Claudio Torres porque ele é um diretor muito aberto. Se você chegar com ideias que vão agregar, ele está super disposto a recebê-las. A gente opinava muito no figurino, na psique das personagens. Ele nos deixava à vontade para improvisar, colocar palavras no texto e criar expressões faciais. Quando você cria amor pelo projeto, você cuida dele como se fosse um filho. Ele escreveu o roteiro pensando em mim. Então, eu ajudei para que esse filme se realizasse ainda melhor. Não cumpri só um trabalho.

 

- É verdade que você se envolveu até com a escolha do figurino, da maquiagem?

Participei quase de tudo. Na época dos ensaios, eu já dava meus pitacos sobre as roupas. Preferia uma cor à outra. Achava que a Amanda tinha de usar roupas mais curtas do que decotadas. Dizia em quais cenas ela deveria estar com mais ou menos maquiagem. Isso tudo é brincar de criar, né? O que é muito bom. Foi muito bacana essa concepção em conjunto. É claro que tudo muito desenhado na cabeça criativa do Claudio, mas com muitas pinceladas de toda a equipe.

 

- E o trabalho com os demais atores, como Selton, Vladimir e Maria Manoella? Como era o clima no set?

Já conhecia Selton, mas nunca tínhamos contracenado juntos. Ele é um ator brilhante e intuitivo. Era muito bom ver o Selton criar. Na cena da banheira, fiquei surpresa com a forma como ele se apresentou. Era um ponto alto do drama do Pedro e eu não achei que o Selton ia dar uma interpretação tão emocionada. Foi muito bom porque criou uma cumplicidade no sentimento de compaixão para com o personagem que a principio a Amanda não teria. Eu e Maria Manoella nos enamoramos. Ela é uma mulher batalhadora, que gosta de viajar. Então, nos identificamos e viramos amigas. O Vladimir eu já conhecia de alguns trabalhos na Rede Globo. Ele é super divertido e adora fazer uma galhofa. Foi um convívio leve e divertido. Os bastidores eram sempre às gargalhadas. Sinto saudade daquela convivência.

 

- Fale um pouquinho das participações especiais.

Não contracenei com todos os atores, mas curti muito a participação da Danni Carlos. Quando soube que ela estava fazendo teste, torci muito para que fosse escolhida.

 

- Qual foi o seu principal desafio durante as filmagens?

Tinha o desafio de estar exposta fisicamente. Fiz cenas usando cinta-liga no meio de homens executivos. Na cena da boate, eu estava com um vestido curtíssimo girando e dançando na frente de todo mundo. Mas eu fui muito bem cuidada pelo Claudio Torres e estava me sentindo à vontade com os meus colegas de trabalho. Então, foi tranquilo.

 

- O que a Luana tem de Amanda?

O fato de acreditar no amor e essa coisa meio gueixa. É claro que ela tem essa característica numa potência 10 e eu numa potência 4. Eu sou muito assim. Quando estou apaixonada, me dedico ao amor. Eu também curto futebol, mas não entendo de futebol como a Amanda.

 

- Como você vê esta sua representação de mulher ideal no imaginário do público?

Que homem não quer uma mulher que seja compreensiva quando ele toma um porre e fica com duas outras mulheres? Que homem não quer chegar em casa e discutir futebol com a mulher? Então, desse ponto de vista, ela é ideal. Só que como toda a mulher quando contrariada, dá trabalho. Agora não me vejo como uma mulher perfeita porque acho que todo mundo tem espelho em casa e se olha. E não é só em relação à imagem. Internamente, a gente sabe que não é perfeito em nada. Mas sou muito feliz com a minha imagem. Acho que é também por causa dela que estou nesse filme. Cinema faz tudo, né? No cinema, nosso cabelo é maravilhoso. A pessoa acorda linda. A Amanda é perfeita fisicamente, mas tinha uma equipe de 40 pessoas pra me produzir. Na vida real é outra história. Não existe perfeição em nada, nem em ninguém.

 

- Tem alguma cena que gostaria de destacar?

É muito bom quando você tem orgulho da história que está contando. É muito bom fazer um personagem que dá o colorido a alguém que tem uma vida cinza. Tem uma cena em que eu não falo quase nada, mas que me diz muito. É quando o Pedro desmaia e a Amanda serve canja pra ele. A Amanda é como um sopro de esperança, um raio de luz na vida de alguém que estava vivendo na escuridão.

 

- Você se sente à vontade fazendo comédia?

Na comédia, não basta ter talento. Tem que ter o tom e uma rapidez na interpretação pra não perder a piada. É muito bom porque você trabalha e se diverte. A gente tinha que se controlar pra não rir no set. Muitas vezes, a gente não conseguia e ria mesmo.

 

- O que o público pode esperar de "A Mulher Invisível"?

Eu acho que as pessoas vão se divertir muito e, ao mesmo tempo, vão molhar os olhos. Quem nunca se sentiu sozinho cercado de gente? Acho que esse tema vai falar com o pedacinho solitário de todo mundo.

 

 

Vladimir Brichta (Carlos)

 

Ator revelado ao público pela peça "A Máquina", de João Falcão, Vladimir Brichta começou sua carreira no cinema em 2004, justamente com a versão em tela grande do espetáculo teatral que o lançou. Estrelou ainda "Romance" (de Guel Arraes, 2008) e "Fica Comigo Esta Noite" (de João Falcão, 2006).

No teatro, já atuou em mais de 20 peças, desde a sua estreia nos palcos em 1993. Na TV, estrelou, em 2008, a série de comédia "Faça Sua História", em que interpretou o taxista Oswaldir, depois de atuar em novelas como "Belíssima", "Kubanakan" e "Porto dos Milagres".

 

- Como surgiu o convite para trabalhar em "A Mulher Invisível"? E o que te

atraiu no filme?

O convite surgiu através de uma ligação do Claudio Torres. Ele deixou um recado dizendo que queria falar comigo. Eu já fiquei empolgadíssimo porque conhecia e admirava o trabalho dele. Quando ele falou do que se tratava, de imediato, fiquei muito animado. O que me motivou, primeiramente, foi trabalhar com o Claudio. Dentro de mim já tinha dado o "ok", mas tinha que ler o roteiro porque o Claudio podia estar me convidando para algo com o qual eu não me identificava ou que eu não me sentia capaz de fazer. Quando eu li, me apaixonei pela história. Achei que ela deveria ser contada e que eu poderia contribuir. Fiquei sabendo do elenco, da presença do Selton. Isso tudo me motivou a fazer o filme. Não estava esperando esse convite. Foi bem inusitado e, de certa forma, caiu do céu.

 

- Descreva o Carlos, seu personagem.

O Carlos é um bom sujeito que não sabe amar, mas que, no decorrer do filme, acaba aprendendo. Enquanto ele não descobre o dom de amar, fica perdido atrás de encontros fortuitos durante a noite. Não quer se envolver, não quer compromisso com ninguém. É muito amigo do Pedro, que, por sua vez, sabe amar demais.

 

- Como foi o processo de construção do "Carlos"?

A gente fez leituras do roteiro, modificou algumas coisas, ensaiou as cenas imaginando as situações. Esses ensaios e as conversas com o Claudio ajudaram a compor o personagem. Como ele é o autor do filme, ele conhecia muito bem os personagens. Eu quis escutá-lo e tentar a todo custo fazer o que ele estava pedindo.

 

- E o que o Claudio pedia?

Ele pediu que eu fizesse um cara inquieto, mas apaixonante. O Carlos poderia ser visto como um sujeito de caráter duvidoso porque ele tem um discurso machista, mas, ao mesmo tempo, não se comporta dessa forma. O Cláudio queria que o Carlos fosse encantador no seu universo simples, de um homem solteiro que não tem compromisso com ninguém, que não projeta muito a vida. Um ser humano simples que ainda não descobriu o amor. Um boa praça, fugindo do estereótipo do homem mulherengo.

 

- Como foi trabalhar com o Claudio Torres?

Foi muito bom. Claudio é um lorde, um homem de muita educação, de uma sensibilidade enorme. O trato comigo e com os outros atores era com carinho, com cuidado. Ele torna precioso o que faz. E faz com que a gente sinta a mesma preciosidade pelo trabalho. É um parceiro de trabalho dos melhores. Tenta tirar mais dos atores quando algo não está bom. É um grande sujeito e um grande profissional.

 

- E trabalhar com o Selton?

Foi um prazer enorme. Sempre admirei o trabalho do Selton. Ele é muito talentoso e tem feito coisas brilhantes ao longo dos anos. O Selton trabalha de um jeito que me influenciou muito e acabou modificando a minha forma de trabalhar depois. Virou uma referência, como um irmão mais velho que de alguma forma você cresce perseguindo. Eu sempre entrava num trabalho pra fazer a minha parte da melhor maneira possível, sem pensar muito no todo. O Selton não. Ele toma partido do trabalho dele e se apropria de fato daquilo. Ele consegue olhar para os lados de uma maneira muito generosa, sem ser invasivo. Foi um encontro muito feliz que eu vou guardar pra sempre.

 

- E o trabalho com os demais atores, como Luana e Maria Manoella? Como era o clima no set?

Não havia trabalhado com elas e foi muito bom. O Claudio criou um clima harmonioso e fez com que a gente trabalhasse como um organismo tranquilo, de maneira prazerosa. A Fernanda Torres dificultou bastante minha concentração. Sem maldade nenhuma, mas pelo talento dela, pela capacidade de improviso que ela tem. Ela chegava no set já endiabrada, muito divertida, e eu tinha que segurar onda. Tive muito prazer de trabalhar com as três. Havia situações do filme muito engraçadas. Era difícil manter a concentração vendo o Selton contracenando com o ar.

 

- Qual foi o seu principal desafio durante as filmagens?

Perseguir e realizar o pedido do Claudio. Ele sabia o que queria e ele era claro no que queria. Então, cabia a mim realizar aquilo.

 

- De qual cena do filme você mais gosta?

A cena em que o Pedro fala que está noivo. A gente está numa palestra no trabalho e ele chega todo animado contanto essa notícia. E na noite anterior o Carlos tinha visto o Pedro dançando sozinho na boate. Eu o chamo pra conversar porque percebo que ele está louco. A gente teve muito espaço pra improvisar nessa cena. Por isso, foi a mais prazerosa de fazer.

 

- A comédia sempre teve um papel importante na sua carreira, certo? É o seu gênero preferido?

Eu gosto muito de fazer e de assistir comédia. Eu não saberia dizer se tenho uma preferência de gênero. Está muito presente nos meus últimos oito anos de carreira. É um gênero que eu não dominava, não fazia com frequência. Hoje, acho que domino e me sinto à vontade fazendo. Não acho que é algo difícil, mas não é uma coisa que eu persiga. É uma coincidência. Têm surgido bons projetos pra mim nessa área.

 

- Você acredita que a comédia nacional esteja em alta com o público? Isso pode ser positivo para o filme?

A principio a gente imagina que a comédia seja mais fácil de comunicar com o público. Mas se você pega como exemplo o cinema de uma forma geral, os campeões de bilheteria não são filmes de comédia, são dramas. No cinema nacional, a comédia tem muito mais história. O público brasileiro gosta de ver comédia e isso é uma verdade.

 

- O que o público pode esperar de "A Mulher Invisível"?

O público vai ver um filme divertido e delicado. Tem situações patéticas, mas com um olhar humano. É divertido, ao mesmo tempo em que conta história de um indivíduo que entra numa loucura, que vive pra dentro em vez de viver com o próximo.

 

 

Maria Manoella (Vitória)

 

Revelada no filme "Lara" (de Ana Maria Magalhães, 2003), Maria Manoella já atuou nos longas-metragens "Nossa Vida Não Cabe Num Opala" (de Reinaldo Pinheiro, 2008) e "Crime Delicado" (de Beto Brant, 2005). No teatro, participou de diversas peças e foi destaque na montagem de "Ricardo III", adaptada e dirigida por Jô Soares.

Na TV, atuou na minissérie "JK", da Rede Globo, e nos seriados "Mandrake", produzido pela Conspiração para a HBO, e "Filhos do Carnaval", também da HBO.

 

- Como surgiu o convite para trabalhar em "A Mulher Invisível"? E o que te motivou a fazer o filme?

Eu tinha feito um episódio de "Mandrake", série produzida pela Conspiração para a HBO. O Claudio assistiu e me convidou pra fazer "A Mulher Invisível". De cara, o roteiro e a personagem me encantaram. Eu nunca tinha feito uma comédia romântica. Sempre fui mais para um registro trágico, do drama. Então, fazer uma comédia romântica no cinema foi algo que me seduziu muito. É um gênero diferente, difícil, mas muito legal.

 

- Descreva a sua personagem.

A Vitória é uma mulher que tem aspirações artísticas, quer escrever, quer ser uma poeta. Ela vem do interior e é casada com um cara um pouco mais velho, que não a trata bem. Quando o marido morre, ela fica meio sem saber que rumo dar na vida. Ao mesmo tempo, tem uma paixão platônica pelo Pedro e esse amor é um fator decisivo na vida dela. É o que faz com que ela se mova. No fim, a vida da Vitória acaba dando uma reviravolta por conta do amor.

 

- Como foi construída essa reviravolta da Vitória?

Para o universo do ator, um personagem como a Vitória é muito rico. Você tem mil possibilidades num personagem só. A transformação da Vitória é construída ao longo do filme. Mas isso foi criado antes. Durante o processo de ensaio, a gente estudou, fez muito trabalho de mesa, mexeu junto no texto até achar uma linguagem comum, uma unidade entre o pensamento de atores e diretor. É muito interessante poder brincar com essas coisas.

 

- Como foi trabalhar com Claudio Torres?

Foi muito legal. O Claudio é um grande diretor que sabe bem o que quer. Às vezes, eu ficava com receio e perguntava se ele tinha certeza daquilo que me pediu pra fazer. Ele dizia que sim e, depois, eu via o bom resultado. Percebi que podia deixar tudo na mão dele. Foi uma boa parceria.

 

- O fato de o Claudio ser o roteirista do filme facilitou o trabalho?

Sim. Facilitou muito. Ele conhecia bem a história, não tinha dúvida de onde queria chegar. Por mais que a gente mexesse numa coisa ou outra, ele não perdia em nenhum momento o fio da meada.

 

- Como era o clima no set?

O clima do set foi maravilhoso. Os atores se deram muito bem. Somos grandes amigos até hoje. Todo mundo se ajudou. Todo mundo queria ensaiar, queria dar o melhor de si. Às vezes, filmávamos uma cena em que eu não estava, mas dava uns palpites. O Vladimir também contribuía com algo numa cena da Vitória e do Pedro. Enfim, tudo era discutido entre todos. E o Claudio nesse sentido foi muito generoso, muito aberto. Deixou a gente construir a história com ele.

 

- De qual cena do filme você mais gosta?

Gosto das cenas do hospital com o Selton e a do restaurante porque deram mais trabalho, eram mais densas, mais profundas. No restaurante, além da complexidade do texto. Tinha uma intensidade dramática muito forte.

 

 



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